O estilo nasceu nas praias de Goa, na Índia. Os maiores astros vêm
de Israel. As festas em geral acontecem muito longe das grandes
metrópoles e duram dias a fio, com a música tocando sem parar. A
inspiração está em Woodstock. O astral mescla o espírito dos
hippies à tecnologia digital. O resultado dessa mistura excêntrica
atende pelo nome de psy-trance, ou trance psicodélico, ou ainda, na
abreviação que está na boca da galera, psy. O psy é hoje o estilo
de música eletrônica mais popular no Brasil.
Há dezenas de festas ao ar livre, festivais e noites em clubes
pipocando de Manaus a Porto Alegre. Gigantes do meio, como as raves
paulistanas XXXPerience e Tribe, atraem facilmente de 20 mil a 25
mil pessoas em cada edição. Festivais menores em lugares remotos,
como o Universo Paralelo, realizado em Ituberá, sul da Bahia, ou o
Trancedence, em Alto do Paraíso, Goiás, costumam atrair milhares de
jovens de 15 a 25 anos - ou até mais velhos -, vindos de todo o
país. Nada mal para um estilo que praticamente não toca no rádio, é
ignorado pelos meios de comunicação e raramente conta com
patrocínio de grandes empresas.
Vários motivos explicam tanto sucesso. Primeiro, o psy quebra a
sisudez das festas embaladas nos últimos 20 anos pelos gêneros
eletrônicos, como drum'n'bass ou tecno. Segundo, a atmosfera das
raves evoca os efeitos de um transe lisérgico: é alegre e lúdica e
não esconde o sabor de revival dos anos 60. Terceiro, a música soa
mais acessível que a das raves dos anos 90. Serve de porta de
entrada tanto para a moçada como para gente mais madura, tornando a
diversão mais democrática. Finalmente, o ambiente eufórico e
informal faz parte do espetáculo. As festas não acontecem em
galpões fechados ou escuros, mas a céu aberto, em lugares
paradisíacos, promovendo o encontro dos participantes com a
natureza. Os eventos costumam contar com superprodução. Os
organizadores investem em decoração e nas fantasias de artistas de
circo, como malabaristas ou engolidores de fogo, para animar a
imensa pista ao ar livre. No tecno e na house music, o público
gosta de se concentrar na música. No psy, predominam o visual
espalhafatoso, a exibição dos corpos e a variedade sonora.
O deejay Rica Amaral é o brasileiro mais bem-sucedido na onda psy.
'O trance pegou por causa das festas ao ar livre. Elas trouxeram
muita gente ä para a música eletrônica e acabaram na mão do pessoal
do trance', diz ele. Rica, um ex-dentista, também é um dos
pioneiros do psy-trance no país. No fim de 1996, fez uma festa com
amigos que reuniu 700 pessoas num sítio. Chamava-se Rave
XXXPerience. Atualmente, essa é a maior marca do psy-trance. Já
promoveu mais de 80 festas por todo o Brasil e lançou dois DVDs,
que, juntos, venderam cerca de 10 mil cópias. Outro nome que tem
feito sucesso no psy brasileiro também é sócio da festa: o deejay
Feio, que antes desenhava roupas de surfe. 'As festas ao ar livre
fazem as pessoas sair da vida urbana e conectar-se com a natureza',
diz ele. Rica e Feio têm agenda cheia no Brasil e se apresentam no
exterior com regularidade.
Na Europa, o trance psicodélico surgiu como uma manifestação de
contracultura, uma espécie de vertente neo-hippie dentro da música
eletrônica. Até hoje, o caráter lá fora permanece alternativo. As
festas são freqüentadas por legiões que vivem em trailers e ganham
a vida vendendo roupas e acessórios nos eventos. No Brasil, o
sucesso do trance já alcançou outro patamar. Há comerciais de
festas na TV e os eventos atraem jovens de classe média que moram
com os pais e têm carro importado. O deejay Rica Amaral chegou a
aparecer em um episódio do Big Brother Brasil no ano passado. Outro
sinal do sucesso será a tenda própria dedicada ao psy-trance no
festival Skol Beats em São Paulo, a cargo da equipe da Tribe.
Apesar de tudo, o êxito galopante não agrada a todos. De acordo com
o deejay Marcelo VOR, um dos mais conceituados na cena trance,
'existem duas linhas de artistas: a dos que vão para o lado farofa
e a outra, séria'. Entre estes últimos, Marcelo inclui nomes como
Audio-X e Wrecked Machines. Na categoria 'farofa' estaria, segundo
ele, Skazi, deejay e produtor israelense que hoje garante festa
cheia em qualquer canto do Brasil. O apelo de Skazi é exibir
atitudes de roqueiro e produzir versões psy para faixas do estilo
heavy metal. Ele não fala em valores neo-hippies, muito menos em
transcendência ou psicodelismo. Prefere se autodenominar o 'Axl
Rose do trance'.
Muitos enfatizam, porém, a opção pelos valores originais da
tradição psicodélica, como amor, paz e respeito. É o caso do
festival Universo Paralelo, realizado pelos irmãos Dario e Juarez
Petrillo (o deejay Swarup), de Brasília. A última edição levou 5
mil pessoas por oito dias para o sul da Bahia, onde foi montada uma
minicidade com cibercafé, apresentações de música regional, teatro,
cinema e até mesmo uma unidade de reciclagem de lixo. 'Em oito
dias, não tivemos nenhuma ocorrência de violência, não aconteceu
uma briga,' afirma Dario.
Mesmo assim, o psy é visto com reservas pelos fãs de outros gêneros
de música eletrônica. A história do psy quase sempre esteve
descolada do restante. Ao contrário do que acontece com o house ou
o tecno, os deejays de psy-trance nunca foram apegados ao disco de
vinil. A música deles não tem conexão com um passado de som negro e
baseado no ritmo. As referências mais ecléticas talvez levem os
praticantes a renunciar à criatividade e à improvisação ao vivo,
traços essenciais nas festas eletrônicas do passado.
O formato digital sempre foi o preferido pelos praticantes do psy.
No início, os deejays tocavam com DATs (fitas de áudio digital,
normalmente usadas por estúdios). Atualmente, quase todos usam o
CD. Também há um intenso intercâmbio de músicas entre deejays e
produtores de todo o mundo, e uma fome constante por música nova. O
deejay Marcelo VOR afirma que hackers já entraram em seu computador
e roubaram produções suas exclusivas.
Mas, no meio das massas dançantes, ninguém parece ligar muito para
esses problemas. Com a combinação de pistas lotadas, filosofia
neo-hippie, violência zero e lugares ecologicamente encantadores, o
psy-trance segue animando centenas de milhares de fãs brasileiros.
Modismo ou não, tem força e popularidade para durar anos. Afinal,
esse gênero emergente inclui qualquer tipo de música e atinge todas
as tribos. Melhor de tudo, a pista de dança é feita de terra e
iluminada dia e noite pelas estrelas.
PSY-TRANCE É...
As cinco principais características de um som que não se prende às
escolas tradicionais da eletrônica
*Bumbo reto e seco e ritmo galopante, chegando a 150 batidas por
segundo
*Trechos de vozes falando sobre assuntos que vão de alienígenas a
visões alucinógenas
*Sintetizadores distorcidos, com um som épico e grandioso
*Centenas de versões para hits de outros gêneros, de artistas como
Tribalistas, Planet Hemp, Nirvana, Metallica, Iron Maiden, Benny
Benassi e Underworld
*Ao contrário dos outros gêneros da música eletrônica, não usa
disco de vinil nem tem conexão declarada com a música negra
Os deejays israelenses e europeus viajaram para a Índia.
Descobriram a energia das festas de praia em Goa e fez-se o
som.
As origens estão em Goa, na Índia. Ex-colônia portuguesa, lugar de
tradicional tolerância e hospitalidade, a região se firmou como
destino de mochileiros e hippies nos anos 60. As festas nas praias
se tornaram um costume local. Na virada dos anos 80, a música
passou a ser eletrônica. Aos poucos, deejays e produtores europeus
como Goa Gill, Mark Allen e Youth começaram a desenvolver uma
vertente influenciada pelo misticismo indiano, por sons étnicos e
pelo rock psicodélico progressivo. A ênfase não era mais o ritmo,
mas sim a 'viagem', proporcionada por uso intenso de efeitos de
estúdio e de timbres exóticos. Em meados dos anos 90, depois de um
acordo de vistos entre Índia e Israel, legiões de jovens
recém-saídos dos rígidos anos de serviço militar israelense
passaram a se atirar nas raves de Goa. Graças a essa conexão,
Israel se tornou o país onde o psy-trance teve o maior impacto no
dia-a-dia. Lá, psy-trance toca no rádio, e um artista como Skazi é
reconhecido por crianças na rua. Hoje, nomes como Infected
Mushroom, Astrix, Analog Pussy e Astral Projection são conhecidos
internacionalmente. O fato de serem alguns dos raros artistas
israelenses que conseguiram isso faz deles um orgulho nacional.
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Data de criação : 09/07/23
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Última atualização : 11/10/17 12:02 / 1 Artigos publicados
